Itacoatiara do Ingá

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Itacoatiaras do Ingá

É no período pré-histórico que temos os mais antigos registros da interferência do homem na paisagem da Paraíba, com pinturas e inscrições rupestres encontrados em vários sítios. Na Pedra do Ingá (distante 80 km de João Pessoa), documento lítico ainda não decifrado, podem ser observadas, esculpidas na rocha, estranhas figuras assemelhadas a astros, animais, objetos desconhecidos e até a algo parecido com um foguete. Elias Herckman, governador da Paraíba durante o período holandês (1638-1644), já se referia a estas “garatujas complicadas” e atribuídas, por alguns estudiosos, até aos fenícios. Na verdade, a Pedra do Ingá continua ainda um mistério para a arqueologia e a antropologia.

O historiador paraibano Ademar Vidal, em seu Guia da Paraíba (Rio de Janeiro, 1943), diz: “No Estado existem inscrições rupestres espalhadas por vários lugares. Assim é que o itinerante poderá encontrá-las na Serra da Caxêxa, em Bananeiras e Serra da Aba, em Patos, enchendo as paredes dos rochedos e dos caldeirões que nas mesmas se encontram, muita inscrição a tinta encarnada e em baixo relevo: riscos inclinados e verticais, cruzes e círculos, garatujas complicadas, desenhos esses comuns a todas as outras inscrições como as de Pedra Lavrada, em Bananeiras, onde se vêem ‘ferros de marcar rezes’; na serra do Algodão, em Areia, numa gruta com restos humanos sepultados sob camadas de terra finíssima, enquanto nas suas paredes se notam arabescos traçados em cor vermelha; na Serra do Corredor, em Cabaceiras; no Pico do Jabre, em Teixeira, com uns desenhos de mãos e pés de homem; no Gengibre ou Belém de Guarabira, em Serrinha, Poço do Boi, Pasmado e no Ingá”.

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Frans Post, Paisagem brasileira com casa-grande e plantação de cana-de-açucar, 282x210cm, 1652

A primeira paisagem

Foi o pintor holandês Frans Post, paisagista do governo de Maurício de Nassau, encarregado de documentar a topografia, a arquitetura militar e civil, cenas de batalhas navais e terrestres, que primeiro reproduziu uma Paraíba que surgia em cal, com suas torres e altares em pedra, os armazéns e a alfândega, o comércio de mercadorias no Porto do Capim. É essa a cena paraibana, a terceira Capitania em importância, antes da invasão holandesa, que ficará registrada nas obras de Post, até mesmo naquelas que ele produz quando volta à Europa.

Arquitetura barroca

A partir do século XVII é inegável a contribuição das ordens religiosas através da construção de seus templos, onde se destaca uma arquitetura rica de detalhes nas pinturas dos forros, nos painéis de azulejos e nas cantarias, em que vai se delineando a introdução de uma obra plástica na vida desta cidade de pouco mais de mil habitantes. Segundo o professor Gabriel Bechara, “se até hoje os estudos históricos sobre a arte paraibana não puderam caracterizar uma escola artística local a exemplo de Pernambuco, Bahia, Minas e Rio de Janeiro durante a Colônia, é possível, entretanto, perceber no legado em pedra dos entalhadores, uma singularidade que diferencia a produção da Paraíba desde o século XVII no âmbito regional.

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Igreja de São Francisco

Porém nem mesmo esta tradição de escultores em pedra calcária que vigorou até o final do século XVIII, tampouco os trabalhos deixados por artistas de outras regiões como os do baiano José Joaquim da Rocha, autor do teto do convento franciscano, conseguiram manter viva durante o século XIX, em meio à crise econômica permanente, uma produção artística à altura do passado.” (BECHARA, 1990)

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Painel de azulejo, parede lateral do adro

E, como exemplo da arquitetura religiosa em vigor, deve-se citar a obra barroca edificada pelos franciscanos na cidade. Realmente, não existe no Nordeste brasileiro uma construção artística de puro barroco como o conjunto Igreja de São Francisco e Convento de Santo Antônio, localizado no Largo de São Francisco, centro de João Pessoa. “A Igreja mais linda do Brasil”, como afirmou Mário de Andrade. Não é conhecido o nome do operário-mestre que o teria dirigido. O seu arquiteto deveria ser português, em função da origem da obra.

“É um monumento simples e adequado ao nosso clima tropical. Sua construção foi iniciada em 1589. Os azulejos ainda se conservam intactos na parte interna e ostentam passagens da História Sagrada. Na composição arquitetônica da igreja há muita referência à cor local. No pórtico principal, parte interna, nos enfeites em pedra, ao lado e em cima, o cajú e outras frutas brasileiras surgem como um motivo de pura arte popular. Os altares da igreja são ornados de trabalhos de fina talha e revestidos alguns deles de uma camada de folhas de ouro.

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Leão de Fô, de nítida inspiração oriental, no paredão do adro

Tudo obedece a um estilo barroco-romano. É obra de artista desconhecido, significando, nos motivos, a glorificação de Nossa Senhora e a apoteose de São Francisco no Céu. O rodapé de azulejos portugueses representa a história de São José do Egito. Obra de talha dourada, o púlpito destaca-se no ambiente pela sua beleza, o mesmo acontecendo com as ombreiras das portas principais da igreja, que dão para o vestíbulo.” (BURITY, 1999)

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Pedro Américo, Autorretrato, óleo sobre tela, 120x86cm, 1893. Acervo Pinacoteca de São Paulo

Os pioneiros

Em 1852 chegou à cidade de Areia uma missão científica chefiada pelo naturalista francês Louis-Jacques Brunet, e incubida pelo então presidente [governador] da Paraíba, Sá e Albuquerque, de “observar a posição geográfica dos principais pontos da Província”. Brunet e o desenhista da expedição, o alemão Bindseil, deram com o menino Pedro Américo, que tinha entre 9 e 10 anos de idade. Bindseil, em carta ao presidente, reconhece eufórico: “Descobri um rapaz, Pedro Américo de Figueiredo e Melo, filho de pais sem fortuna, que possui um talento extraordinário para a pintura. Desde que sei de minha arte, tanto quanto basta para apreciar um talento nascente, não me lembro de ter encontrado outro igual”. E, durante vinte meses, Pedro Américo acompanhou a expedição por toda a Paraíba e parte de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí. Pouco tempo depois, o prodígio foi estudar na Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, escola criada quando da chegada da Missão Artística Francesa, e da qual saíram os maiores nomes da pintura e da escultura do país nos séculos XIX e XX. O paraibano Pedro Américo era tratado como a glória da Academia, seu melhor aluno, a esperança da arte brasileira. Autor de obras emblemáticas como O brado do Ipiranga (1886-87) e Batalha do Avaí (1872-77), é considerado, ao lado de Zeferino da Costa e de Vítor Meireles, um dos três mestres brasileiros do período Neoclássico. (MARTINS, 1994)

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Aurélio de Figueiredo

Há registros de que, em 1913, o pintor paraibano Aurélio de Figueiredo, irmão de Pedro Américo, tenha chegado à capital com algumas pinturas para dar início à criação do nosso primeiro museu ou “galeria de retratos”, por sugestão e convite do então presidente Castro Pinto. Anos depois, veio o pintor Antônio Parreiras (Niterói-RJ, 1860-1937), que tinha uma carta de recomendação de Epitácio Pessoa ao então presidente da Paraíba, Camilo de Holanda, para execução de uma pintura sobre a Revolução de 1817, obra esta pertencente ao acervo do Palácio da Redenção (João Pessoa). Segundo o professor Gabriel Bechara, citado pelo artista, Chico Pereira (História da Paraíba em fascículos, 1997), “a partir daí algumas exposições começaram a acontecer na Capital, contribuindo para que se formasse a nossa primeira geração de artistas, composta por Olívio Pinto, Frederico Falcão, João Pinto Serrano, Amelinha Theorga e Voltaire D’Ávila. Em 1924, estes artistas realizaram uma grande coletiva com cerca de 118 obras. A mostra, de forte tendência regionalista, foi denominada Salon Felippéa em resposta à exposição do artista pernambucano Joaquim do Rego Monteiro, irmão do também pintor Vicente do Rego Monteiro, que acabara de trazer à Paraíba os primeiros exemplos de pintura moderna.” (SILVA JÚNIOR, 1997)

E, de fato, o que predomina neste Salon é a paisagem ao invés de algum sopro modernista que já surgia na vizinha Recife. O mar e seus coqueirais, além das cenas urbanas, refletem a opção por temas bucólicos e atestam o isolamento vivido pelas artes plásticas da província, o que vai perdurar até a década de 1950. Realmente, “a Paraíba não participou do ideário modernista a não ser na literatura com a presença de José Américo de Almeida e José Lins do Rego.” (ZACCARA, 2009)

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Pedro Américo, Cristo morto, óleo sobre tela, 1901. Acervo Museu Regional de Areia

Ao mesmo tempo, o retrato também torna-se algo comum entre as famílias mais abastadas neste início de século. A fotografia é amplamente utilizada, em especial na revista Era Nova (anos 1920), que tratava da vida social às amenidades político-culturais da elite paraibana. E vai “fornecer as imagens necessárias dos modelos, ao mesmo tempo que passam a ser colorizadas e tratadas como pintura.” (SILVA JÚNIOR, 1989)

Tanto que, nesta época, os artistas Frederico Falcão, Pedro Tavares, Olívio Pinto, Pinto Serrano e, anos mais tarde, José Lyra, tiveram destacada atuação como fotógrafos, mesmo caso do desenhista suíço Eduardo Stuckert, estabelecido na cidade desde 1900. Outro pioneiro, o fotógrafo Walfredo Rodriguez, profundo conhecedor da nossa cultura, publicou livros sobre a cidade, realizou exposições e documentou os acontecimentos sociais, com destaque para o filmeSob o céu nordestino (1924-28), um verdadeiro marco do cinema paraibano.

Outra categoria que teve grande aceitação na Parahyba, como em outros estados, foi a caricatura, que surgia em mostras de grande popularidade e eram publicadas em jornais e revistas da época. Rubem Diniz e Hernani Sá, entre outros artistas nordestinos que aqui atuaram, eram os paraibanos mais reconhecidos. “A importância social desse movimento artístico que tinha à frente jornalistas e trabalhadores da imprensa, ainda necessita de um estudo à parte para avaliar a sua significação, nesse período de declínio da arte acadêmica e início da consolidação do modernismo no Brasil”. (BECHARA, 2001)

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José Lyra, Barra do Gramame, s.d.

O Centro de Artes Plásticas da Paraíba, instalado em 1947, em um prédio na rua Barão do Triunfo, no centro de João Pessoa, tinha como proposta o ensino livre das artes que teria mais tarde sua continuação com o Grupo Tomás Santa Rosa e o Departamento Cultural da UFPB, já nos anos 1960. “O CAP, entidade sem fins lucrativos, recebia algum apoio financeiro do Governo para sua manutenção, graças a um projeto do então deputado e colecionador, Dr. João Lélis. Foram esses artistas – José Lyra, Olívio Pinto, Pinto Serrano e Hermano José – responsáveis pela modernização tardia das artes plásticas no Estado, com as primeiras tentativas de ruptura com o academismo sem, contudo, deixar alguns deles a tradição da pintura da cena urbana e marítima, suas contribuições mais importantes à história da arte na Paraíba.” (SILVA JÚNIOR, 1977)

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José Lyra, Retrato de Tinet, 1947. Acervo UFPB

No livro Os anos 60 – revisão das artes plásticas da Paraíba, Raul Córdula escreve: “Antes da intensificação do movimento de artes plásticas que caracterizou os anos 60 houve em João Pessoa um aglomerado de artistas de cavalete que, reunidos no Centro de Artes Plásticas da Paraíba, assumiu a pintura de paisagens e retratos da cidade daquela época. A esses artistas, envolvidos no bucolismo da Felipéia, leitores de Rainer Maria Rilke e Marcel Proust, decupadores dos tons de verde vegetal e marinho, seguidores dos pintores franceses, de Monet a Matisse, os jovens artistas dos anos 60 devem o sereno exemplo da humildade. Foi no Centro de Artes Plásticas que Ivan Freitas, Archidy Picado e Breno Mattos iniciaram-se através da orientação de José Lyra, Olívio Pinto, Pinto Serrano e Hermano José. Ivan Freitas deixou a Paraíba em 1957, mas continuou aqui o seu gesto criador como lenda que servia de apoio às novas atitudes dos então ‘enumerados’ artistas jovens advindos da Geração 59. Archidy Picado, desde cedo rompeu com a norma vigente e, entre viagens ao Rio de Janeiro, freqüentou o ateliê de Ivan Serpa no MAM [Museu de Arte Moderna] onde conheceu artistas atuantes e novas realidades. De volta a João Pessoa, Archidy instalou em sua casa, no bairro de Jaguaribe, seu ateliê que foi freqüentado por Antônio Cândido, Marconi Beniz e por mim.” (CÓRDULA, SILVA JÚNIOR, 1979)

Museu de Arte Assis Chateaubriand

Esta década se caracterizou por uma maior dinamização das artes   plásticas, através da ação dos novos artistas que passaram a ocupar um espaço do Theatro Santa Roza – um ateliê coletivo na mesma ideia do CAP. Foi uma época de inúmeras exposições, realizadas onde fosse possível, para apresentar as recentes produções da arte moderna. Nesse momento, a Biblioteca Pública [rua General Osório] era o ponto de encontro das artes. A UFPB, em 1962, cria o seu Departamento de Artes, a partir da colaboração dos artistas do grupo Tomás Santa Rosa. O setor de artes plásticas, com Archidy Picado na organização, passou a funcionar no Casarão de Azulejos, em frente à Praça Dom Adauto, no centro da cidade. E, em 1963, abriu inscrições para seus cursos de artes plásticas, contabilizando mais de 300 interessados. Destes cursos, surgiram artistas que se destacariam no panorama local, como Flávio Tavares, Régis Cavalcanti e Celene Sitônio.

Vanildo Brito, Raul Córdula, Archidy Picado e Arthur Cantalice. Exposição de Raul Córdula. João Pessoa,1968

Os professores, artistas ainda sem o devido preparo, necessitavam de aprimoramento. Aí entra em cena Simeão Leal, na época Diretor do Serviço de Documentação do MEC, que enviou à Paraíba – através do Governo Pedro Gondim, e sob a supervisão de Virgínius da Gama e Melo – o pintor abstracionista italiano, Domenico Lazzarini, para orientar os artistas locais nas antigas técnicas da pintura e sua preservação, além de ter criado, em 1963, a primeira galeria de arte “contemporânea” na cidade.

Livro

Em 1966, já tendo consolidado a implantação do Museu de Arte de São Paulo, o empresário e jornalista paraibano Assis Chateaubriand, criador e patrocinador da Campanha Nacional de Museus Regionais, decidiu instalar um museu de arte em Campina Grande. Criado inicialmente como Museu Regional de Arte Pedro Américo, foi inaugurado em 20 de outubro de 1967, numa festa memorável, com a presença de autoridades, artistas e críticos como Mário Pedrosa, Mário Barata, Antonio Dias, Solange Escosteguy, Rubens Gerchman, Anna Maria Maiolino, Yanis Gaitis, Jean Boghici, além de artistas paraibanos e de estados vizinhos.

O curador da mostra Museu de Arte Assis Chateaubriand (CCBB, Brasília, 2001), Marcus Lontra, em seu texto de apresentação, diz: “A década de 1960 foi extremamente rica e conturbada; nas artes, tanto na Europa como no Brasil, a nova figuração, influenciada pela arte pop norte-americana, inseria-se nas discussões comportamentais que caracterizaram esta época. Entre nós, o período marcado entre o golpe militar de 1964, e a definitiva implantação da ditadura, em dezembro de 1968, foi de intensa movimentação: a figuração brasileira investiu nos aspectos políticos, e o Brasil passou a produzir uma arte tipicamente urbana, violenta e sexualizada, em que se destaca o artista paraibano Antonio Dias, ainda hoje referência fundamental na produção estética brasileira contemporânea. É essa arte pop, política, irônica, crítica, apaixonada, que incorpora elementos da arte povera italiana e termina por desembocar no tropicalismo, que constitui um núcleo destacado na coleção do Museu de Campina Grande.”

Antonio Dias, Francisco Duarte, Mário Pedrosa e Rubens Gerchman. Inauguração da Galeria Faxeiro, Campina Grande, 1967

A “euforia” na Borborema é também o momento ideal para o surgimento do grupo Equipe 3 [Eládio Barbosa, Chico Pereira e Anacleto Elói], que agitou a cena campinense com happenings e ações de vanguarda, inspirados na Nova Objetividade e incursões no tropicalismo e poesia processo. Os artistas do Equipe 3, isoladamente, participam da Bienal de São Paulo [Eládio Barbosa] e Bienal Nacional da Bahia, além da “expedição cultural” que empreenderam por várias cidades do país, em 1968.

Laís Aderne, uma das principais articuladoras para a criação do curso de Educação Artística da UFPB

Em 1976 a Universidade Federal da Paraíba, tendo à frente o Reitor Lynaldo Cavalcanti, volta a desempenhar papel importante para o desenvolvimento das artes plásticas no Estado, como havia sido na década anterior. Ainda funcionavam os cursos livres de arte, sob a supervisão da Coordenação de Extensão Cultural, setor que substituíra o antigo Departamento Cultural, instalada num edifício na Praça Rio Branco, centro da capital, e onde lecionavam os artistas Gilvan Samico, Montez Magno, João Câmara Filho, Arthur Cantalice, Roberto Lúcio, Alfonso Bernal, Euclides Sá, entre outros.

E em 1977, finalmente, era criado o curso de Educação Artística na UFPB, e Chico Pereira explica: “A nova dinâmica imposta por Lynaldo Cavalcanti nas áreas da ciência e tecnologia passou a exigir também, no campo da cultura, a mesma postura. Foi criado o Departamento de Artes e de Comunicação, para a formação de arte-educadores, jornalistas e relações públicas.” (…)

Encontro de professores da UFPB para a discussão do projeto do NAC. Campina Grande, 1977

“No mesmo período, foram criados os atuais núcleos artísticos e de pesquisas culturais, entre eles o Núcleo de Arte Contemporânea-NAC, este com o objetivo de estabelecer uma ponte entre a Paraíba e centros nacionais e internacionais, bem como promover internamente uma atualização crítica do ponto de vista teórico e prático com as outras disciplinas universitárias. Para a criação deste Núcleo, a UFPB convidou o artista Antonio Dias e o crítico Paulo Sérgio Duarte, que se responsabilizaram pelo projeto do NAC, o qual teve também a participação do artista plástico Raul Córdula e do sociólogo Silvino Espínola. O Núcleo de Arte Contemporânea foi marco divisor no panorama da arte local. Apesar do processo de modernidade nas artes, acontecido antes na Paraíba, o NAC produziu no cenário da arte brasileira um questionamento importante, que foi o de romper a ditadura da hegemonia do eixo Rio-São Paulo. Até então, era impossível acontecer movimento significativo de arte contemporânea fora dessa engrenagem. Logo depois da instalação do NAC, foi criado o Departamento de Artes do Campus II, em Campina Grande, com a finalidade de expandir o ensino das artes. Apesar de ser um departamento, funciona até hoje como extensão artística. Terminado o Reitorado Lynaldo Cavalcanti, as administrações posteriores não emprestaram ao NAC a mesma atenção quando da fase da sua criação, até porque os recursos também se tomaram escassos e as sucessivas mudanças ocorridas na direção desse Núcleo concorreram para o seu declínio.”(SILVA JÚNIOR, 1979)

Antonio Dias. Campina Grande, 1977

Assim também confirma Raul Córdula, um dos coordenadores do NAC ao lado de Chico Pereira, “como sua equipe inicial, concebeu, nasceu, cresceu e morreu entre 1978 e 1984, quando foi fechado para reformas e, ao reabrir dois anos depois, suas ideias renovadoras e contemporâneas do futuro estavam desgastadas pela falta de apoio que sucedeu. Ele existe ainda com o mesmo nome, mas não passa de uma galeria de arte convencional que, embora tenha apresentado ao público algumas exposições, é apenas espaço conveniente para as relações públicas da UFPB.” (CÓRDULA, 2004)

Na esteira do boom econômico dos anos 70, surge uma classe média interessada num gosto bem “decorativo” e proliferam galerias pelo país. Na Paraíba, no entanto, algumas poucas ações de mercado começam a investir mais no artista local, na ideia de formar colecionadores e exibir os artistas emergentes. Daí surge a Galeria Batik, misto de galeria e escritório das arquitetas Conceição Serra e Madalena Zaccara, que existiu até 1979.

Chico Pereira, Um dia de sol. Feirinha de Tambaú, João Pessoa, 1979

No começo da década, as atividades do NAC ganhavam corpo e espaço na mídia nacional. O que se justifica com a presença de artistas seminais da arte contemporânea brasileira Tunga, Marcelo Nietsche, Cildo Meireles, Anna Maria Maiolino, Paulo Roberto Leal, Paulo Klein, Antonio Dias, entre outros , para “experimentações” até mesmo inéditas em outras capitais nordestinas. No NAC, também aconteceram ações de artistas locais, como Um dia de sol, intervenção urbana de Chico Pereira, e, Cenografia e adereços da donzela Joana,de Breno Mattos. Em 1984, com o fim do programa desenvolvido pelos criadores do NAC, o seu retorno, dois anos depois, em nada correspondia ao vanguardismo inicial proposto.

Abertura da I Arte atual paraibana. Funesc, João Pessoa, 1988

Apesar do marasmo que passou a existir na cidade, entretanto, duas notícias vislumbravam novo tempo: a criação de uma associação de artistas plásticos e a construção, no Governo Burity, do Espaço Cultural José Lins do Rêgo, projeto de Sérgio Bernardes e inaugurado em 1983, no bairro de Tambauzinho. Ali se instalava a Fundação Espaço Cultural da Paraíba- Funesc, cujo setor de artes plásticas sob a orientação dos artistas Hermano José, Régis Cavalcanti e, depois, Arthur Cantalice foi um dos primeiros a desenvolver suas atividades com a oferta de cursos livres e a realização de mostras de novos artistas. Archidy Picado, Unhandeijara Lisboa, Dyógenes Chaves, Fred Svendsen, Chico Ferreira, Chico Dantas e Alcides Ferreira, eram alguns dos professores. Logo após abrigar a gigantesca mostra de arte neo-expressionista alemã [Momentaufnen, 1987], seguida de workshops entre brasileiros e alemães, a Funesc organizou, por solicitação da classe artística e empenho direto do governador Tarcísio Burity, duas grandes mostras Arte atual paraibana, I e II em que se apresentava um panorama da arte local produzida naquele momento. Em 1987 a UFPB cria a sua Pinacoteca, em um espaço provisório na Biblioteca Central, “com obras de artistas que atuaram como professores do Departamento Cultural nos anos sessenta e que tiveram importante papel na formação de uma geração que vai emergir neste mesmo período e nas gerações subseqüentes”, como relata a professora Rosires Andrade, ex-diretora da Pinacoteca.

Abertura da I Arte atual paraibana. Funesc, João Pessoa, 1988

Fazendo uma análise sobre a tradição da pintura na Pinacoteca da UFPB, afirma Rosires: “A produção artística, nas primeiras décadas, esteve mais ligada à figuração mais próxima da Escola Pernambucana, a um repertório regional no sentido do apego às tradições e ao imaginário popular nordestino, presentes de maneira exemplar, na obra de João Câmara, Roberto Lúcio, Miguel dos Santos e Flávio Tavares. Por outro lado, nota-se a reação de um grupo de artistas liderados por Raul Córdula, em que a figuração cede lugar a uma expressão em que os elementos visuais, cores e formas são o tema e o assunto.” (…)

Abertura da I Arte atual paraibana. Funesc, João Pessoa, 1988

“A corrente figurativa tem continuidade nas décadas seguintes através de uma diversidade de propostas embasadas no expressionismo, representadas pela produção dos artistas: Alice Vinagre, apresentando uma visão ontológica do homem mergulhado nas contradições do mundo atual; Chico Dantas, revelando uma obsessão pela anatomia humana apresentando de maneira velada a nebulosidade do ser contemporâneo; Fred Svendsen, compondo figuras bestiais de um mundo taciturno; José Crisólogo, mostrando o imaginário do povo sertanejo na sua força para vencer as adversidades; e Sérgio Lucena, reiterando uma face mascarada e espectral do imaginário, povoado de figuras sinistras.”

O professor Gabriel Bechara, na apresentação do catálogo da mostra I Arte atual paraibana (Funesc, 1988), também analisa o embate entre figuração-abstração na Paraíba: “Se a figura era ainda a dominante na pintura no Nordeste, mesmo que longe de padrões acadêmicos e rica em descobertas, havia, porém, a resistência de alguns que se opunham a ela na Paraíba, como Raul Córdula e Chico Pereira. A estes últimos juntaram-se depois Rodolfo Athayde e Cláudio Santa Cruz que formam hoje um grupo mais comprometido com a arte não-figurativa. Roberto Lúcio, artista paraibano radicado no Recife, aos poucos abandona a figuração, detendo-se numa pesquisa sutil de formas e gradações cromáticas que ainda se reportam à paisagem. O final dos anos setenta viu surgir também uma nova pintura representativa, menos comprometida com o regional e seu imaginário e mais voltada para o grotesco, malgrado a diversidade dos artistas. Chico Dantas, Chico Ferreira, Fred Svendsen e Lacet são exemplos deste novo expressionismo ao qual se juntariam depois Alice Vinagre, e mais recentemente, Wagner, Roró de Sá e Sérgio Lucena.” (BECHARA FILHO, 1988)

Alberto Lacet, Um outro Políbio, óleo sobre tela,90x70cm, 1987. Acervo Funesc


Alberto Lacet, Um outro Políbio, óleo sobre tela,90x70cm, 1987. Acervo Funesc

Dentre as galerias de arte surgidas neste período, em João Pessoa, destaca-se a Galeria Gamela, de Roseli e Altemir Garcia, no centro da cidade [rua Almirante Barroso, nº 144], que desde 1980 tem se consolidado no comércio de obras de artistas já consagrados e/ou de novos talentos locais. Em maio de 1985 é inaugurada a Galeria Archidy Picado, nas dependências da Funesc, em homenagem a este artista falecido no início do ano. Como galeria oficial, tem objetivos de apoiar os novos artistas e as tendências menos comerciais. No começo da década a arquiteta, Madalena Zaccara, criou a MZ Artearquitetura (manteve-se até 1982), onde realizou mostras dos artistas Rubens Gerchman e Claudio Tozzi (em contatos estabelecidos através do NAC), Maurício Arraes, Raul Córdula, Flávio Tavares, José Lucena e sua filha Letícia, Tota e seu filho Temílson Régis. Outros espaços ainda funcionavam na cidade: o Hall da Biblioteca Central da UFPB, dedicada a alunos e professores do curso de Educação Artística e, no Theatro Santa Roza, a Galeria José Américo de Almeida (criada anteriormente com o nome de Galeria Tomás Santa Rosa), que, sob a direção do artista Hermano José, realizou o Salão A presença do mar nas artes plásticas; e, a Galeria Visual, do artista campinense Antonio Rocha.

Rede


Le Hors-Là

Este período é marcado pelos intercâmbios internacionais entre artistas da Paraíba e de países como a Alemanha, França e Suíça. Esse fenômeno difere das décadas passadas quando os artistas locais migravam para o eixo Rio-São Paulo. A criação do Centro de Artes Visuais Tambiá-CAVT (1994), pela família Almeida (Antonio Augusto, Marlene e José Rufino) e das associações Le Hors-Là e Rede para o movimento de artistas visuais (Raul Córdula, Chico Pereira e Dyógenes Chaves), culminaram com viagens de estudo à Europa dos artistas Rodolfo Athayde, Rosilda Sá, Otávio Maia, Luiz Barroso, Dyógenes Chaves, Chico Pereira, Alice Vinagre, Sérgio Lucena, Fabiano Gonper, Murilo Campelo e Marcos Veloso. Em 1998 a Rede recepcionou um grupo de 12 artistas franco-suíços para uma estadia de dois meses em João Pessoa (projeto Laboratoire), através da Fundação Pro Helvetia e com apoio oficial local, na perspectiva de trocas de experiência. Apesar do Sudeste não ser mais a única alternativa para os jovens talentos da terra, ainda estava claro que havia necessidade de reconhecimento além fronteiras.

Catálogo da mostra Xilogravura: do cordel à galeria. Funesc, João Pessoa, 1993

Além do surgimento de várias galerias na cidade – Athaendy (Giovanna Germoglio e Pepita], Escritório de Arte da Paraíba [Suzete Forte], Artenossa [Maristela Mendonça], Transarte [Lu e Júnior], Falcone Arte&Objetos [Fernando Falcone], entre outras – há a consolidação dos salões regionais: o Salão Municipal de Artes Plásticas-SAMAP (da Prefeitura de João Pessoa), e o Salão de Novos Artistas Paraibanos-SNAP (Sesc João Pessoa), que passam a abrigar a novíssima geração de artistas locais.

IV Fenart

Ainda no final da década passada, o Departamento Cultural da Prefeitura de João Pessoa, promove a mostra Paixão de Cristo em Art-Door, com obras realizadas por artistas locais representando as 15 estações da Via Sacra, e exibidas em placas de out-door no anel externo da Lagoa do Parque Solon de Lucena. A ideia tinha como referência a Exposição Internacional de Art-Door, ocorrida no início dos anos 80, em Recife, e organizada por Paulo  Bruscky e Daniel Santiago. O projeto logo foi abortado na sua 4ª edição em função das polêmicas causadas por algumas obras que suscitavam “provocação” à religiosidade da população de João Pessoa.

Em 1993, durante a gestão da artista Marlene Almeida na coordenação de artes plásticas da Funesc, foi realizada a mostraXilogravura: do cordel à galeria, sob a curadoria de Leonor Amarante, que, um ano depois levava esta mostra para o MASP, em São Paulo. Sem dúvida, foi a maior mostra com artistas xilográfos já realizada no país e que, além de seminários e debates, ocupou todo o mezanino, praça e auditórios da Funesc. No ano seguinte, por iniciativa do seu presidente, Antônio Alcântara, a Funesc cria o Festival Nacional de Arte-Fenart, com objetivos de promover ações artísticas, de entretenimento e de formação, em todas as áreas da cultura. Apesar do desuso do modelo “festival” (os festivais de arte estavam cada vez mais se especificando em determinadas áreas), o Fenart emplacou pela simples razão de dispor de um espaço gigantesco (talvez o maior do país) totalmente equipado para atender um festival completo.

Sandoval Fagundes, II Paixão de Cristo em Art-Door. João Pessoa, 1990

Em todas suas edições, a programação de artes plásticas do Fenart homenageou vários artistas plásticos – Simeão Leal, Jackson Ribeiro, Raul Córdula, José Lyra e Archidy Picado –, realizou cinco mostras bienais de Desenho e de Gravura, além de ter oferecido workshops, dedicados aos artistas iniciantes, ministrados pelos artistas: Maria Bonomi, Raul Córdula, Leda Catunda, Paulo Bruscky, Gil Vicente, José Rufino, Leda Watson, Edgar Vasques, Uiara Bartira, Ester Grinspun, Jean Stern, Carlos dos Reis e Luísa Gonçalves (de Portugal).

Fundo Municipal de Cultura

Com o encerramento das atividades do Centro de Artes Visuais Tambiá, em 2000, alguns dos seus ex-alunos buscam no associativismo a solução ideal para continuar as experiências já iniciadas, no CAVT, através das oficinas ministradas por Flávio Tavares, Marlene Almeida, Alice Vinagre, Dyógenes Chaves, Chico Ferreira e José Rufino. Surgem, assim, o grupo Grilo (Alena Sá, Neuma Sales, Antonio Coutinho, Hilda Andrade, Eimar Fernandes, Noemi D’Ávila e Everaldo Alves), que se instalou no 1° andar de um prédio no Centro Histórico; e, a Associação de Artistas Plásticos da Paraíba-Associart, uma Ong que, apesar do nome, não é a mesma associação de artistas plásticos que vingou até final dos anos 1980.

Exposição de Alice Vinagre. Usina Cultural Energisa, 2008

A Associart, instalada nas dependências da Funesc, é formada por mulheres, em sua maioria, com objetivos de continuar estudando e exibir suas obras, neste caso, às vezes resultava em mostras de caráter mais social que comercial, mais amador que profissional. Isso, talvez, em função da falta de orientação em suas atividades. Mesmo assim, criou o Festival de Artes Visuais da Paraíba-FAVI, capitaneado por sua presidente, Lúcia França, que se tornou, a cada mês de maio, o evento ideal para os sócios exibirem sua produção. Tanto assim, que já foi reconhecido, oficialmente como parte da programação cultural da cidade.

No início da década, após a aquisição da Saelpa, empresa concessionária de energia elétrica no Estado, o grupo Cataguazes instala a Usina Cultural Energisa (29 de maio de 2003), em um prédio da primeira metade do século XX, próximo à Praça da Independência, e em pouco tempo, torna-se uma das principais instituições culturais da Paraíba, notadamente após a realização do 3° Cineport, festival de cinema dedicado aos países de língua portuguesa. Desde sua inauguração, já realizou mais de 50 exposições de artistas paraibanos, brasileiros e estrangeiros, e firmou parcerias com Funarte, Instituto Itaú Cultural, UFPB e vários órgãos oficiais da cultura para a realização de projetos e oficinas de arte contemporânea.

Capa da revista Pessoa. FIC Augusto dos Anjos, João Pessoa, 2007

Como tem ocorrido noutros centros mais avançados (no quesito mercado de arte), o marchand dá lugar ao decorador e ao arquiteto, que passam a ditar o gosto e a obra que “combina” com o projeto de interiores. A prova é a extinção das galerias de arte na cidade, permanecendo apenas, heroicamente, a Galeria Gamela (agora com filial na praia de Tambaú), e a recente Galeria Louro&Canela, adequadamente instalada no escritório do seu proprietário, o artista e arquiteto Jonas Lourenço, na avenida Edson Ramalho (a “nossa” Oscar Freire), em Manaíra.

Na verdade, não existe colecionismo na cidade e saíram de cena os nossos poucos colecionadores – Antônio de Pádua, Odilon Ribeiro Coutinho, Walter Cunha etc. – o que, talvez, tenha influenciado que alguns artistas locais deixassem a cidade para se aventurar em centros com um mercado de arte mais consolidado, como fizeram Alice Vinagre (Recife), Verdeee, Sérgio Lucena e Fabiano Gonper (São Paulo), Murilo Campelo (Genebra/Suíça) e Flauberto Queiroz (Berlim/Alemanha). Já outros, como José Rufino, Júlio Leite e Martinho Patrício, mesmo residindo na “terrinha”, estão representados em galerias de São Paulo, e por essa visibilidade tem participado das principais bienais internacionais, como as de Havana, São Paulo, Mercosul, Vento Sul, Cuenca, do Fim do Mundo, e ARCO de Madri.

Abertura do projeto NAC 30 Anos, 2008

Em paralelo, e mesmo com altos e baixos, os governos oficiais apresentaram à classe artística novo formato de mecenato: leis de incentivo à cultura – o FIC Augusto dos Anjos (do Governo do Estado) e o FMC (da Prefeitura de João Pessoa). Infelizmente, as comissões de avaliação não contam com especialistas em todas as áreas, daí que o resultado tem sido, na maioria, um fiasco para o setor de artes visuais. Na verdade, a maior culpa disso está na desmobilização dos artistas plásticos para a indicação, como representantes da sociedade civil, de seus pares para compor estas comissões. Com a união da classe, talvez houvesse melhores resultados.

Entretanto, alguns poucos artistas já conseguiram emplacar seus projetos editoriais e publicar um “catálogo”, tão necessário para a divulgação da sua obra. Dentre os beneficiados estão José Pagano, Gustavo Moura, Flávio Tavares, Hermano José, Fred Svendsen, Clóvis Júnior, Alberto Lacet, Elpídio Dantas, Alice Vinagre, Chico Ferreira, Alena Sá, Analice Uchôa, Antonio David, João Lobo, Sérgio Lucena, Gabriel Bechara, entre outros.

Convite de projeto patrocinado pela Funarte e Petrobras. Usina Cultural Energisa, 2008

Desde os anos 1990, outro fenômeno “nacional” atinge as artes plásticas: o desaparecimento da crítica de arte nos periódicos. Até pouco tempo, este autor mantinha coluna semanal no jornal O Norte (2005-2009), em que usava o espaço muito mais como divulgação das atividades que aconteciam na cidade que um lugar para a “crítica de arte”. É compreensível até reconhecer que o jornal não é o melhor lugar para um ensaio técnico – muitas vezes hermético – sobre artes visuais (já foi o tempo que havia, nos jornais da cidade, três ou quatro colunistas escrevendo sobre cinema). Ainda mais, o avanço da tecnologia fez surgir um novo espaço – a internet – para exibição da produção artística e intelectual. Proliferam os sites eblogs pessoais e as revistas eletrônicas. Na contramão, o lançamento da revista Pessoa (editorias de Fábio Queiroz, William Costa e Dyógenes Chaves), foi uma resposta à falta de espaço para artigos sobre artes visuais. Com custo popular e projeto gráfico simples (impressão em preto sobre papel jornal), a revista pretende atingir um público mais especializado.

Já no final da década, algumas notícias sugerem uma temporada de boa colheita para o setor de artes visuais. Depois da primeira tentativa frustrada, finalmente, o MEC aprova o Mestrado em Artes Visuais da UFPB (num “consórcio” com a UFPE). Não há dúvida de que vai movimentar a discussão e reflexão da produção contemporânea local. Até vem coroar a chegada, em boa hora, da artista e professora Marta Penner, para coordenar o NAC/UFPB (desde 2007), dando novo impulso às atividades deste equipamento universitário ao reintegrá-lo ao curso de Artes Visuais, como já ocorreu na gestão inicial (1978-1984), quando se desenvolviam ações de arte-educação e pesquisa, hoje tão em moda como fruição e mediação na arte contemporânea.

Rodolfo Athayde

Nesta mesma empreitada da UFPB, anuncia-se novo prédio para a Pinacoteca (que ainda funciona provisoriamente na Biblioteca Central), no mesmo instante que o Governo do Estado deseja instalar o Museu de Arte Contemporânea da Paraíba-MAC, na Funesc. Este museu, que já conta com acervo razoável, existe no “papel” (Decreto nº 20.696, de 05/11/1999, assinado pelo então governador José Maranhão), e tem todas as condições de se tornar realidade para a sociedade paraibana e a classe artística, ainda sem um espaço museológico que abrigue a arte contemporânea, apesar da reconhecida importância dos nossos artistas.

Chico Ferreira

Outra obra, a Estação Cabo Branco, de Ciências e Arte, projeto de Oscar Niemeyer e instalada em área polêmica, no topo da barreira do Cabo Branco, talvez seja hoje o lugar mais visitado da cidade. Apesar da inexistência de um programa curatorial antenado com a arte contemporânea, a Estação tem uma programação que, vez ou outra, traz benefícios para as artes visuais, atestando a acertada política cultural da Prefeitura de João Pessoa, nos últimos anos.

Na contramão das curadorias pouco preparadas, ao final, destaco o novíssimo programa JTP (Jovens Talentos da Paraíba), promovido pela Aliança Francesa João Pessoa, que utiliza método simples e eficaz: uma comissão curatorial seleciona (e acompanha) alguns jovens artistas, que ainda não realizaram exposição individual, para uma exibição solo em seu prédio [rua Bento da Gama, nº 396, Torre]. Esta, talvez seja mais uma ação isolada mas é certamente a indicação de uma fórmula típica da contemporaneidade: poucos recursos, boa capacidade técnica e investimento no novo. Aliás, isso até me parece coisa do passado, tipo: NAC, CAP, Geração 59, SAPP, Equipe 3. Por isso, eu ainda acredito.
Dyógenes Chaves

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